Meu nome é Ronaldo Ramos Laranjeira. Sou médico psiquiatra, professor e pesquisador. Ao longo de mais de três décadas, dediquei minha vida a entender um fenômeno que, muitas vezes, é tratado apenas como falha moral ou falta de caráter: a dependência.
Quando comecei minha carreira, o Brasil ainda tinha poucos dados sólidos sobre consumo de álcool e drogas. Havia opiniões fortes, ideologias intensas — mas faltava ciência em escala populacional. Foi isso que me motivou: produzir evidência. Entender números. Mapear padrões. Transformar percepções em dados concretos.
Minha formação e o início da vocação científica
Formei-me em Medicina e escolhi a Psiquiatria como especialidade porque sempre me interessou o comportamento humano em suas formas mais complexas. Desde cedo, percebi que dependência não era apenas um problema clínico individual — era um fenômeno social, econômico e cultural.
Minha formação incluiu doutorado e períodos de colaboração internacional, onde pude observar como outros países enfrentavam questões semelhantes. Voltei ao Brasil convencido de que precisávamos de levantamentos nacionais robustos e políticas públicas baseadas em evidência.
UNIFESP: onde construí grande parte da minha trajetória
Grande parte da minha vida profissional aconteceu dentro da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Lá, ajudei a estruturar centros de pesquisa que se tornaram referência nacional no estudo do uso de álcool e outras drogas.
| Instituição | Cargo/Função | Período |
|---|---|---|
| UNIFESP | Professor Titular de Psiquiatria | Décadas de 1990–2020+ |
| UNIAD | Fundador e Coordenador | Anos 1990 |
| INPAD | Diretor Científico | Anos 2000–2010 |
A UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) foi um dos projetos mais importantes da minha vida acadêmica. Ali, conseguimos estruturar pesquisas que culminaram no II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas — um marco para o Brasil.
Produção científica: minha busca por evidência
Sempre acreditei que opinião não substitui dado. Ao longo dos anos, publiquei dezenas de artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Meu foco principal foi a epidemiologia do consumo de álcool no Brasil, políticas públicas e estratégias de prevenção.
Algumas Publicações Importantes
| Ano | Título | Link |
|---|---|---|
| 2014 | II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas | SciELO |
| 2007 | Alcohol use patterns in Brazil | PubMed |
| 2010 | Public policies and substance abuse | ResearchGate |
Esses trabalhos me permitiram participar ativamente de debates sobre publicidade de álcool, políticas regulatórias e prevenção em larga escala.
Dependência comportamental e o crescimento das apostas
Nos últimos anos, comecei a observar um fenômeno novo no Brasil: a explosão das apostas esportivas online. Para mim, o jogo problemático se insere no mesmo espectro das dependências comportamentais.
Vejo com preocupação a velocidade com que o mercado cresce, especialmente entre jovens. A dependência não surge apenas com substâncias químicas — ela pode surgir a partir de padrões de reforço comportamental intensos, como ocorre nas apostas digitais.
Minha posição é clara: regulação precisa ser estruturada, baseada em evidência e não apenas em arrecadação fiscal. Medidas simbólicas não bastam. Precisamos de limites concretos.
Minha participação no debate público
Nunca me limitei ao ambiente acadêmico. Participei de audiências públicas, debates parlamentares e entrevistas em veículos nacionais. Sempre defendi que saúde pública deve estar acima de interesses econômicos.
| Tipo | Descrição |
|---|---|
| Audiência Pública | Discussões no Congresso Nacional sobre políticas de drogas |
| Entrevistas | Participação em grandes jornais e canais de televisão |
| Congressos | Simpósios internacionais sobre dependência |
Perfis acadêmicos
| ResearchGate | researchgate.net/profile/Ronaldo-Laranjeira |
| Google Scholar | scholar.google.com |
| UNIFESP | unifesp.br |
O que considero meu legado
Se há algo que define minha trajetória é a tentativa constante de colocar evidência científica no centro do debate público. Trabalhei para que o Brasil tivesse dados sólidos sobre álcool e drogas. Hoje, vejo o desafio das apostas e das novas formas de dependência comportamental surgindo com força semelhante.
Minha missão continua sendo a mesma: compreender, medir, analisar e propor soluções baseadas em ciência. Dependência não é um slogan político. É um fenômeno humano complexo — e precisa ser tratado com responsabilidade.
Minha visão sobre políticas públicas e responsabilidade social
Ao longo da minha carreira, compreendi que estudar dependência não é apenas analisar sintomas clínicos ou publicar artigos científicos. É, sobretudo, assumir responsabilidade social. Quando trabalhamos com álcool, drogas ou jogo patológico, lidamos com fenômenos que atravessam famílias, economias e estruturas institucionais inteiras.
Sempre defendi que políticas públicas eficazes precisam equilibrar três dimensões: evidência científica, viabilidade econômica e proteção social. O problema surge quando uma dessas dimensões domina as demais. Quando a arrecadação fiscal passa a ser o principal argumento, corre-se o risco de minimizar impactos sociais e sanitários que, mais cedo ou mais tarde, recaem sobre o próprio Estado.
No caso do álcool, por exemplo, o Brasil convive há décadas com uma cultura permissiva de publicidade intensa e acesso relativamente fácil. Os dados que ajudamos a produzir mostraram que consumo abusivo está associado a violência, acidentes de trânsito e perdas econômicas significativas. A mesma lógica começa a se desenhar no campo das apostas online.
A interseção entre dependência química e comportamental
Durante muitos anos, concentrei meus esforços nas substâncias psicoativas. Entretanto, à medida que a ciência evoluiu, tornou-se claro que mecanismos neurobiológicos semelhantes operam nas dependências comportamentais.
O sistema de recompensa cerebral, mediado principalmente por circuitos dopaminérgicos, não distingue de forma absoluta entre uma substância e um comportamento repetitivo que gera reforço intenso. Isso significa que jogos de azar e apostas online podem produzir padrões compulsivos comparáveis aos observados no uso de álcool ou cocaína.
Esse entendimento mudou o modo como interpreto a expansão do mercado de apostas no Brasil. Não se trata apenas de entretenimento digital — trata-se de um sistema desenhado para maximizar permanência, engajamento e recorrência.
No centro desse debate, considero fundamental analisar fatores estruturais.
Fatores Estruturais que Influenciam a Dependência
| Dimensão | Exemplo | Impacto Potencial |
|---|---|---|
| Econômica | Facilidade de crédito e microtransações | Aumento do endividamento |
| Tecnológica | Apps com notificações constantes | Reforço comportamental contínuo |
| Cultural | Normalização social das apostas | Redução da percepção de risco |
| Regulatória | Publicidade ampla e pouco restrita | Maior exposição de jovens |
Quando observo esses elementos combinados, percebo que o risco não está apenas no indivíduo vulnerável, mas no ambiente estruturado para estimular repetição.
A importância dos levantamentos nacionais
Se há algo de que me orgulho profundamente é ter contribuído para a construção de levantamentos nacionais robustos. O II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas não foi apenas um relatório técnico — foi uma fotografia do Brasil real.
Esses dados permitiram identificar:
- Percentual de consumo abusivo em diferentes faixas etárias
- Padrões regionais distintos
- Relação entre renda e uso problemático
- Impactos familiares
A metodologia adotada nesses levantamentos baseou-se em amostragem probabilística nacional, entrevistas estruturadas e validação estatística rigorosa. Esse padrão metodológico é o que defendo que também seja aplicado ao estudo das apostas no Brasil.
Sem dados sólidos, o debate fica refém de narrativas.
Formação de novas gerações
Ao longo dos anos, orientei dezenas de mestrados e doutorados. Muitos dos pesquisadores que hoje atuam no campo das dependências no Brasil passaram por nossa estrutura na UNIFESP.
Sempre enfatizei três princípios para meus orientandos:
- Rigor metodológico
- Independência intelectual
- Compromisso com a saúde pública
A ciência precisa ser tecnicamente sólida e eticamente comprometida.
Controvérsias e críticas
Nenhuma trajetória pública extensa ocorre sem controvérsias. Ao defender posições mais restritivas em relação à liberalização de álcool ou apostas, enfrentei críticas de setores econômicos e até de parte da comunidade acadêmica.
Entendo que divergências são parte do processo democrático. O que sempre procurei foi basear minhas posições em dados e evidências. Não se trata de moralismo, mas de epidemiologia.
Quando se analisa custo social, internações hospitalares, acidentes, violência e perdas econômicas, a discussão ganha outra dimensão.
A expansão das apostas no Brasil contemporâneo
Hoje, observo com atenção a rápida transformação do cenário brasileiro. Plataformas digitais, marketing agressivo, influenciadores e patrocínios esportivos criaram um ambiente em que apostar tornou-se prática cotidiana para milhões.
Minha preocupação central é que o ritmo de expansão econômica esteja superando a velocidade da regulação estruturada. Países que passaram por processos semelhantes mostram que a prevenção precisa vir antes da consolidação total do mercado.
Vejo a necessidade de:
- Limites obrigatórios de depósito
- Transparência algorítmica
- Restrição de publicidade direcionada a jovens
- Sistemas de autoexclusão eficientes
Essas medidas não inviabilizam o mercado — apenas criam barreiras protetivas.
Ciência como bússola
Ao olhar para trás, vejo uma trajetória marcada por números, debates e decisões difíceis. Mas também vejo consistência: sempre busquei compreender fenômenos complexos por meio de evidência.
A dependência — seja química ou comportamental — não é simples. Ela envolve neurobiologia, contexto social, vulnerabilidade individual e ambiente econômico.
Continuo acreditando que o papel do pesquisador não é apenas produzir artigos, mas participar da construção de políticas públicas responsáveis.
Minha trajetória não é apenas sobre álcool, drogas ou apostas. É sobre compreender comportamento humano em sua dimensão mais vulnerável — e tentar oferecer respostas fundamentadas, mesmo quando são desconfortáveis.
E enquanto o Brasil continuar enfrentando novos desafios no campo das dependências, minha missão permanece a mesma: analisar, medir, propor e debater com base em ciência.


