Ronaldo Ramos Laranjeira

Professor Titular de Psiquiatria da UNIFESP, PhD pela Universidade de Londres
Ronaldo Ramos Laranjeira é médico psiquiatra, professor titular e pesquisador brasileiro reconhecido por sua atuação nas áreas de dependência química e políticas públicas de saúde mental. Com longa trajetória na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), foi fundador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD) e participou da coordenação de importantes levantamentos nacionais sobre consumo de álcool e drogas no Brasil. Sua produção científica é amplamente citada em estudos sobre epidemiologia, prevenção e regulação. Atua também no debate público, contribuindo com análises técnicas sobre dependências comportamentais, incluindo o crescimento das apostas e seus impactos sociais.

Meu nome é Ronaldo Ramos Laranjeira. Sou médico psiquiatra, professor e pesquisador. Ao longo de mais de três décadas, dediquei minha vida a entender um fenômeno que, muitas vezes, é tratado apenas como falha moral ou falta de caráter: a dependência.

Quando comecei minha carreira, o Brasil ainda tinha poucos dados sólidos sobre consumo de álcool e drogas. Havia opiniões fortes, ideologias intensas — mas faltava ciência em escala populacional. Foi isso que me motivou: produzir evidência. Entender números. Mapear padrões. Transformar percepções em dados concretos.

Minha formação e o início da vocação científica

Formei-me em Medicina e escolhi a Psiquiatria como especialidade porque sempre me interessou o comportamento humano em suas formas mais complexas. Desde cedo, percebi que dependência não era apenas um problema clínico individual — era um fenômeno social, econômico e cultural.

Minha formação incluiu doutorado e períodos de colaboração internacional, onde pude observar como outros países enfrentavam questões semelhantes. Voltei ao Brasil convencido de que precisávamos de levantamentos nacionais robustos e políticas públicas baseadas em evidência.

UNIFESP: onde construí grande parte da minha trajetória

Grande parte da minha vida profissional aconteceu dentro da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Lá, ajudei a estruturar centros de pesquisa que se tornaram referência nacional no estudo do uso de álcool e outras drogas.

InstituiçãoCargo/FunçãoPeríodo
UNIFESPProfessor Titular de PsiquiatriaDécadas de 1990–2020+
UNIADFundador e CoordenadorAnos 1990
INPADDiretor CientíficoAnos 2000–2010

A UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) foi um dos projetos mais importantes da minha vida acadêmica. Ali, conseguimos estruturar pesquisas que culminaram no II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas — um marco para o Brasil.

Produção científica: minha busca por evidência

Sempre acreditei que opinião não substitui dado. Ao longo dos anos, publiquei dezenas de artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Meu foco principal foi a epidemiologia do consumo de álcool no Brasil, políticas públicas e estratégias de prevenção.

Algumas Publicações Importantes

AnoTítuloLink
2014II Levantamento Nacional de Álcool e DrogasSciELO
2007Alcohol use patterns in BrazilPubMed
2010Public policies and substance abuseResearchGate

Esses trabalhos me permitiram participar ativamente de debates sobre publicidade de álcool, políticas regulatórias e prevenção em larga escala.

Dependência comportamental e o crescimento das apostas

Nos últimos anos, comecei a observar um fenômeno novo no Brasil: a explosão das apostas esportivas online. Para mim, o jogo problemático se insere no mesmo espectro das dependências comportamentais.

Vejo com preocupação a velocidade com que o mercado cresce, especialmente entre jovens. A dependência não surge apenas com substâncias químicas — ela pode surgir a partir de padrões de reforço comportamental intensos, como ocorre nas apostas digitais.

Minha posição é clara: regulação precisa ser estruturada, baseada em evidência e não apenas em arrecadação fiscal. Medidas simbólicas não bastam. Precisamos de limites concretos.

Minha participação no debate público

Nunca me limitei ao ambiente acadêmico. Participei de audiências públicas, debates parlamentares e entrevistas em veículos nacionais. Sempre defendi que saúde pública deve estar acima de interesses econômicos.

TipoDescrição
Audiência PúblicaDiscussões no Congresso Nacional sobre políticas de drogas
EntrevistasParticipação em grandes jornais e canais de televisão
CongressosSimpósios internacionais sobre dependência

Perfis acadêmicos

ResearchGateresearchgate.net/profile/Ronaldo-Laranjeira
Google Scholarscholar.google.com
UNIFESPunifesp.br

O que considero meu legado

Se há algo que define minha trajetória é a tentativa constante de colocar evidência científica no centro do debate público. Trabalhei para que o Brasil tivesse dados sólidos sobre álcool e drogas. Hoje, vejo o desafio das apostas e das novas formas de dependência comportamental surgindo com força semelhante.

Minha missão continua sendo a mesma: compreender, medir, analisar e propor soluções baseadas em ciência. Dependência não é um slogan político. É um fenômeno humano complexo — e precisa ser tratado com responsabilidade.

Minha visão sobre políticas públicas e responsabilidade social

Ao longo da minha carreira, compreendi que estudar dependência não é apenas analisar sintomas clínicos ou publicar artigos científicos. É, sobretudo, assumir responsabilidade social. Quando trabalhamos com álcool, drogas ou jogo patológico, lidamos com fenômenos que atravessam famílias, economias e estruturas institucionais inteiras.

Sempre defendi que políticas públicas eficazes precisam equilibrar três dimensões: evidência científica, viabilidade econômica e proteção social. O problema surge quando uma dessas dimensões domina as demais. Quando a arrecadação fiscal passa a ser o principal argumento, corre-se o risco de minimizar impactos sociais e sanitários que, mais cedo ou mais tarde, recaem sobre o próprio Estado.

No caso do álcool, por exemplo, o Brasil convive há décadas com uma cultura permissiva de publicidade intensa e acesso relativamente fácil. Os dados que ajudamos a produzir mostraram que consumo abusivo está associado a violência, acidentes de trânsito e perdas econômicas significativas. A mesma lógica começa a se desenhar no campo das apostas online.

A interseção entre dependência química e comportamental

Durante muitos anos, concentrei meus esforços nas substâncias psicoativas. Entretanto, à medida que a ciência evoluiu, tornou-se claro que mecanismos neurobiológicos semelhantes operam nas dependências comportamentais.

O sistema de recompensa cerebral, mediado principalmente por circuitos dopaminérgicos, não distingue de forma absoluta entre uma substância e um comportamento repetitivo que gera reforço intenso. Isso significa que jogos de azar e apostas online podem produzir padrões compulsivos comparáveis aos observados no uso de álcool ou cocaína.

Esse entendimento mudou o modo como interpreto a expansão do mercado de apostas no Brasil. Não se trata apenas de entretenimento digital — trata-se de um sistema desenhado para maximizar permanência, engajamento e recorrência.

No centro desse debate, considero fundamental analisar fatores estruturais.

Fatores Estruturais que Influenciam a Dependência

DimensãoExemploImpacto Potencial
EconômicaFacilidade de crédito e microtransaçõesAumento do endividamento
TecnológicaApps com notificações constantesReforço comportamental contínuo
CulturalNormalização social das apostasRedução da percepção de risco
RegulatóriaPublicidade ampla e pouco restritaMaior exposição de jovens

Quando observo esses elementos combinados, percebo que o risco não está apenas no indivíduo vulnerável, mas no ambiente estruturado para estimular repetição.

A importância dos levantamentos nacionais

Se há algo de que me orgulho profundamente é ter contribuído para a construção de levantamentos nacionais robustos. O II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas não foi apenas um relatório técnico — foi uma fotografia do Brasil real.

Esses dados permitiram identificar:

  • Percentual de consumo abusivo em diferentes faixas etárias
  • Padrões regionais distintos
  • Relação entre renda e uso problemático
  • Impactos familiares

A metodologia adotada nesses levantamentos baseou-se em amostragem probabilística nacional, entrevistas estruturadas e validação estatística rigorosa. Esse padrão metodológico é o que defendo que também seja aplicado ao estudo das apostas no Brasil.

Sem dados sólidos, o debate fica refém de narrativas.

Formação de novas gerações

Ao longo dos anos, orientei dezenas de mestrados e doutorados. Muitos dos pesquisadores que hoje atuam no campo das dependências no Brasil passaram por nossa estrutura na UNIFESP.

Sempre enfatizei três princípios para meus orientandos:

  1. Rigor metodológico
  2. Independência intelectual
  3. Compromisso com a saúde pública

A ciência precisa ser tecnicamente sólida e eticamente comprometida.

Controvérsias e críticas

Nenhuma trajetória pública extensa ocorre sem controvérsias. Ao defender posições mais restritivas em relação à liberalização de álcool ou apostas, enfrentei críticas de setores econômicos e até de parte da comunidade acadêmica.

Entendo que divergências são parte do processo democrático. O que sempre procurei foi basear minhas posições em dados e evidências. Não se trata de moralismo, mas de epidemiologia.

Quando se analisa custo social, internações hospitalares, acidentes, violência e perdas econômicas, a discussão ganha outra dimensão.

A expansão das apostas no Brasil contemporâneo

Hoje, observo com atenção a rápida transformação do cenário brasileiro. Plataformas digitais, marketing agressivo, influenciadores e patrocínios esportivos criaram um ambiente em que apostar tornou-se prática cotidiana para milhões.

Minha preocupação central é que o ritmo de expansão econômica esteja superando a velocidade da regulação estruturada. Países que passaram por processos semelhantes mostram que a prevenção precisa vir antes da consolidação total do mercado.

Vejo a necessidade de:

  • Limites obrigatórios de depósito
  • Transparência algorítmica
  • Restrição de publicidade direcionada a jovens
  • Sistemas de autoexclusão eficientes

Essas medidas não inviabilizam o mercado — apenas criam barreiras protetivas.

Ciência como bússola

Ao olhar para trás, vejo uma trajetória marcada por números, debates e decisões difíceis. Mas também vejo consistência: sempre busquei compreender fenômenos complexos por meio de evidência.

A dependência — seja química ou comportamental — não é simples. Ela envolve neurobiologia, contexto social, vulnerabilidade individual e ambiente econômico.

Continuo acreditando que o papel do pesquisador não é apenas produzir artigos, mas participar da construção de políticas públicas responsáveis.

Minha trajetória não é apenas sobre álcool, drogas ou apostas. É sobre compreender comportamento humano em sua dimensão mais vulnerável — e tentar oferecer respostas fundamentadas, mesmo quando são desconfortáveis.

E enquanto o Brasil continuar enfrentando novos desafios no campo das dependências, minha missão permanece a mesma: analisar, medir, propor e debater com base em ciência.

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